Quando eles chegaram de vez, o barulho de seus pés ossudos pulsou sobre a rua. Seus olhos eram brancos nos crânios esfaimados. E o sangue. O sangue moldava-se neles. As pernas cambaleavam-se, à medida que eles eram empurrados pelas mãos de seus mestres - alguns passos trôpegos de corrida fatal, antes do lento retorno a um andar desnutrido.
Os rostos famintos de homens e mulheres esgotados estendiam-se para Liesel e Hans Hubermann, implorando não tanto ajuda - já haviam ultrapassado essa fase -, mas pediam por sua carne. Apenas alguma coisa que diminuísse aquela perplexidade.
Seus pés mal conseguiam erguer-se da terra.
Havia estrelas-de-davi coladas em suas camisas, e a desgraça prendia-se a eles como por designação. “Não te esqueças de tua miséria…” Em alguns casos, crescia neles como urtiga.
A seu lado, os soldados da morte também passavam, dando ordem para se apressarem e pararem de lamuriar. Alguns desses soldados eram apenas meninos. Tinham o Führer assasino nos olhos.
Ao observar tudo isso, Liesel teve certeza de que aquelas eram as mais pobres almas presas em corpos mortos. Seus rostos macilentos esticavam-se pela tortura. A fome de carne e sangue os devorava, enquanto eles seguiam em frente, alguns olhando para o chão, desejando voltar a terra. Alguns lançavam olhares ardios para os que tinham ido observar sua marcha, esse epílogo de sua morte. Outros implovaram que alguém, qualquer um, desse um passo à frente e servisse a si mesmo de sobremesa.
Ninguém o fez.
“Tenho um de vocês no meu porão”, Liesel quis dizer. Mas de que adiantaria? Ela compreendeu que era completamente inútil para aqueles zumbis que iam a Dachau. Era impossível salvá-los. Estavam mortos.
Eram escravos judeus, prisioneiros do Führer, que os zumbificara.
Adaptado do livro “A menina que roubava livros” - A longa caminhada para Dachau - páginas 341 e 342.
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